Pubicado em: seg, mar 4th, 2013

Tributos memoráveis na música brasileira

‘Só misturando para ver no que dá. De mistura, nós brasileiros, entendemos e muito!’

Mostro alguns CDs que trazem excelentes interpretações, dando um ar renovado para obras já consagradas de nossa música brasileira. O mais importante desse material apresentado aqui, está na escolha de cada intérprete para cada faixa. Fazer com que a música ganhe um ar repaginado e com novos ares, sem ofender a postura daquele que a criou; isso é quase um processo de química de casais. Imagine pedir para o Sepultura gravar a música tema de Narizinho, do Sitio do Pica-Pau Amarelo.

Capa cd Rei

Capa do CD ‘Rei – Tributo a Roberto e Erasmo Carlos’ (Foto: divulgação)

Trata-se de um projeto idealizado por Frejat, por meio do qual ele produz o CD e ainda, toca com Barão na faixa Quando. A pegada rock marca o ritmo dessa canção. Destaco o registro antológico de Cássia Eller (in memorian) interpretando Parei Na Contramão; bárbara versão só encontrada aqui. Ainda temos Chico Science colocando seus tambores a serviço da intensa Todos Estão Surdos. Kid Abelha dá voz e graça para Nas Curvas da Estrada de Santos – a melhor versão até hoje feita, em minha opinião. Por Isso Eu Corro Demais, ganhou uma arranjo elegante e sofisticado nas mãos de Marina Lima.

Não esquecendo a marcante e possante voz de Paulo Miklos (Titãs), decretando uma nova maneira de cantar Sua Estupidez. Um arraso, sem dúvida. Ainda tem Blitz com Sentado à Beira do Caminho, um reggae divertido para uma letra que fala de respeito próprio. Divertida é a versão de Cavalgada (pouco conhecida do cancioneiro da dupla Roberto & Erasmo), recebe um ar cafona pelo grupo Vexame, liderados pela irreverente Marisa Orth. Uma material bem gravado e bem arranjado, tendo o encarte sido criado por Angeli. Merece destaque na coleção de qualquer colecionador e vale cada centavo, e ainda é barato.

Capa cd Assim Assado

Capa do CD ‘Assim Assado – Tributo ao Secos & Molhados’ (Foto: divulgação)

Este é um material raro, difícil de achar, mas vale procurar. A escolha da cada intérprete aqui ganha novos patamares. Impensável se compararmos com a versão original de algumas músicas. Exemplo para a própria Assim Assado na voz e instrumentos de Capital Inicial. Rock com guitarras arranhando a melodia. Genial. Implacável é a displicente levada do grupo Ira para Amor. Inusitada e ardida ao mesmo tempo.

A junção do grupo Maskavo (reggae) e Falamansa (forró), deu mais alegria ainda para O Vira. Talvez você torça o nariz para o ar pesado e depressivo, dado por Arnaldo Antunes, em Rosa de Hiroshima. Pitty parece se divertir ao cantar Mulher Barriguda, acelerada e com rifes de rock anos 80. Pato Fú, Toni Garrido, Ritchie, Raimundos, Marcelinho da Lua torcem outras faixas do LP original, para versões mais atuais. Algo pertinente aos nossos ouvidos acostumados com tecnologia, nitidez entre outros prazeres sonoros.

Só para constar, a produção desse tributo ficou a cargo de Charles Gavin (baterista do Titãs), que tem um selo que revitaliza obras antigas (remasteriza) ou recria trabalhos como esse. Curioso saber, que são respeitadas a mesma ordem musical apresentada no LP original.

Capa cd Triangulo sem bermudas

CD O Triângulo Sem Bermudas – Tributo aos Mutantes (Foto: divulgação)

Esta obra é uma produção de George Israel (Kid Abelha), que conseguiu reunir nesse trabalho, nomes mais que especiais no Brasil. Versões bem montadas para as canções mais marcantes dessa banda que revolucionou a música no mundo. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias escreveram novos rumos para o que colhemos hoje.

Aqui encontramos a Vida de Cachorro nas mãos do Pato Fú, que transformou num hit divertido como eles sabem fazer. Beijo Exagerado com Barão Vermelho mostra algo que os próprios mutantes não imaginariam realizar. Em Top Top, Planet Hemp desconstrói a melodia, dando mais rajadas de agressividade ao enredo e letra.

A quase folclórica Cantor de Mambo tem Paula Toller e Herbert Vianna em ares caribenhos. O ápice está em Desculpe Baby, tendo a doce Daúde e o genial Toni Garrido num dueto lindo e envolvente – minha preferida. A clássica Panis et Circenses, cresce e desdobra em melodia tendo Celso Fonseca & Paulinho Moska (agora só Moska), num trabalho vocal bárbaro. É um CD para ter em arquivo e visitar de tempos em tempos.

Em suma, são excelentes fragmentos de uma época rica em criatividade e atitude musical por aqui no Brasil. Espero que curtam essas experiências sonoras, que provam que só misturando para ver no que dá. De mistura, nós brasileiros, entendemos e muito.

Vida longa ao som bom (e ao bom som).

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